O terremoto
Tinha tudo para ser um dia comum: manhã de sábado, sete horas, estava em sono profundo. De repente, minha mãe invade o quarto e acorda minha irmã e eu com um certo ar de desespero. Eu, como sempre, fingi que não ouvi. Foi então que ela disse que estava havendo um terremoto.
Segundo ela, meu pai havia acordado com o barulho e estava bastante preocupado. Na hora me assustei mas me mantive cética. Quem já viu? Abalos sísmicos no Brasil? E pior ainda: em João Pessoa? Mas quando vi a janela tremendo e ouvi o bater dos pratos em meio a outros ruídos estranhos, percebi que aquilo era sério.
Troquei de roupa, escovei os dentes, peguei meu inseparável relógio de pulso, minha câmera digital, meu iPod e meu celular. Coloquei tudo dentro de uma bolsa e pensei: “Caso eu vire uma desabrigada, vendo tudo e alugo um quitinete”. Quis levar um livro que estava lendo. Pra variar, não o encontrei. Pensei também em levar algum objeto com valor sentimental que me trouxesse alguma lembrança, mas nada me veio à cabeça. Estava tão nervosa que nem consegui fazer xixi antes de sair. Mesmo assim, deixamos a casa.
Na calçada, encontramos Seu Antônio, nosso vizinho e maior curioso da rua. Ele incrivelmente não havia percebido nada. Minha irmã, quase em prantos, chegou a prometer que daquele momento em diante reciclaria tudo e cuidaria do meio ambiente. Eu expliquei que esse tipo de fenômeno não tem muito a ver com poluição e até demos umas risadas.
Meu pai saiu sozinho em um carro. Eu e minha irmã saímos no outro com minha mãe, que não é nem de longe uma pessoa tranqüila. Estávamos de certa forma fugindo do perigo e ao mesmo tempo querendo descobrir o que se passava.
Ao dobrar a esquina, tudo se esclareceu. Logo vimos uma enorme máquina amarela que estava compactando o solo a duas ruas da nossa. Era tudo uma farsa, como já dizia o grande poeta Francisco de Assis. Demos uma boa gargalhada e voltamos para casa, onde finalmente pude fazer xixi sossegada.
As pessoas falam que em momentos de medo e nervosismo passa uma espécie de filme em nossas cabeças (novamente uma farsa) e pensamos nas coisas que são realmente importantes para nós. Confesso que não me surpreendi com meus pensamentos nessa fração de tempo. Mas confesso que essa experiência bizarra me fez refletir a respeito de pendências e estou decidida a exterminá-las da minha vida. O rolo compressor passou, a casa tremeu e me balançou.